Há algum tempo atrás, muito tempo talvez, uma amiga que na
época estudava psicologia me falou de uma teoria, ou afirmação de um professor –
não me lembro bem, que dizia que nós nunca nos apaixonávamos por uma pessoa. Nos
apaixonávamos por nós mesmos. Nos apaixonávamos pela representação que criávamos
dentro de nossa cabeça, que não significava a verdade
da pessoa. Lembro, que na época, aquilo me soou tão frio, tão triste. Hoje, já
nem tanto.
Na verdade, acredito que todas as pessoas que nos são
especiais, o são, pois nos ajudam a descobrir dentro de nós o que antes
estava adormecido. Ninguém me dá amor, pois não é possível transferir
sentimento de um ao outro. As pessoas me dão carinho, que é um ato... As
pessoas me ajudam a descobrir o amor dentro de mim, assim como eu posso ser
aquele que ajuda alguém a encontrar amor dentro de si. O mesmo pode acontecer
com alegria, tristeza, coragem, determinação, saudade e assim por diante.
Quando amigos se separam, namoros terminam ou, até mesmo, quando somos demitidos, ficamos perdidos – muitas vezes – por acreditarmos que não mais
receberemos as doses de sentimentos que tanto nos são valiosos e que essas
pessoas ou processos nos "davam". Como se alguém fosse o dono do comprimido
da felicidade e nos desse doses desse ao estarmos juntos. Não percebemos que o
comprimido é nosso. Que essas pessoas somente nos ajudam a encontrar o
comprimido.
Hoje, conversando com minha mãe, falando sobre algumas
situações que estão me chateando, e algumas pessoas que estão relacionadas,
minha mãe demonstrou no discurso acreditar que eu queria eliminar essas pessoas
da minha vida, ou do meu coração. Eu jamais desejaria tirar alguém do meu
coração. Por mais que alguém me decepcione, me machuque, me entristeça, eu
carregarei essa pessoa comigo. Quem eu sou hoje é uma colcha de retalhos
daqueles que compartilharam comigo parte de sua existência, e assim me fizeram
pensar, refletir e descobrir em mim parte da minha verdade. Por modelo ou por
oposição pessoas me ajudaram a fazer a minha história, e minha história é o que eu sou. Incluído nessa colcha retalhos bonitos, ou nem tanto.
É nesse ponto que eu concordo que quando amo alguém, amo a mim mesmo. Eu amo a forma única que elas fazem eu sentir isso ou aquilo. Eu amo a forma com que elas me ajudam a me perceber. Amigos que se foram, familiares que já partiram,
amores que se transformaram... Todos esses são parte do que eu sou hoje e eu
não tenho garantias de como seria minha vida se eles não tivessem passado por
minha história, inclusive os que me machucaram. Essa "minha" amiga, esse "meu" amor, essa "minha" família... Todos
eles só existem em um lugar, existem somente no MEU coração. Pegar uma decepção que
alguém possa me causar e cobrir com ela toda a nossa história é o pior que eu poderia fazer. Eu jamais deletaria alguém da minha história pois isso seria matar parte de mim. Por esse motivo, carrego em
meu coração todos que de alguma forma representam, seja em anos ou minutos, um
marco na minha linha do tempo.
O melhor disso tudo é quando, dessa forma,
sabendo que as pessoas existem dentro de nós, sabendo que o amor que sinto não
foi dado de fora para dentro, mas descoberto de dentro para fora, percebemos que quando as pessoas partem, viajam, deixam de compartilhar de nossa história
diária... Eu não deixo de receber esse amor, essa alegria, ou o sentimento que
for. O comprimido é meu. O sentimento existe dentro de mim. E as pessoas, mesmo
que me causando isso ou aquilo agora, são “minhas” na representação que eu
quiser guardá-las e me ajudarão a encontrar em mim os sentimentos que eu
quiser encontrar.
Embora não fosse a ideia, ao escrever esse texto lembrei de um episódio de uma série que eu gostava muito, onde o próprio cupido tentava convencer uma das personagens a se permitir a entrega ao amor. Lembre-se, entretanto, que qualquer outro sentimento cabe aqui. Amor é só o exemplo. Mas acho uma passagem muito bonita e quero compartilhar também:
"Olhe, Phoebe, o que eu sou é a perspectiva do amor
verdadeiro, só isso. Porque uma vez que você tenha deixado o amor entrar, ele
jamais irá embora. Não confunda a mensagem com o mensageiro, Phoebe. É o que
você tem feito o tempo todo. Veja bem, mensageiros cometem erros: eles se
perdem, eles fogem, eles até mesmo morrem. Mas a mensagem, abra seu coração,
ela vem da própria vida. Ouça-a. Faça isso por mim, e por você." -
Heartbreak City
Acho que era isso que eu queria colocar para fora... É por isso que eu vivo. Eu vivo para descobrir dentro de mim, o melhor em mim. Eu vivo para que eu possa, de alguma forma, permitir que os outros me ajudem a encontrar o que está perdido em mim. E ficarei feliz se, no caminho, alguém através de mim encontrar o pouquinho que seja, dentro de si... Mais feliz ainda, se essa perceber que o que encontrou, encontrou dentro de si, não em mim, e é parte do que é, não do que sou.
Excelente junho para nós... Que possamos escrever belas histórias.
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