Todos os dias as autoridades discutem, conversam e decidem coisas que só descobrimos depois. Algumas decisões nos alegram, outras nos indignam, nos revoltam. Encerram o comércio ambulante, mas não reduzem os valores das mercadorias. O salário mínimo continua baixo, o transporte público encarece, nós continuamos pagando impostos, os salários dos políticos são exorbitantes, mas nosso sistema público continua inaceitável. Mas de todas as decisões tomadas nos últimos tempos, uma que considerei alarmante foi a decisão de que as doações para artistas de rua estão proibidas. Nosso amigo Kassab ainda tem tempo para pensar em coisas como essas? Oi? Mas como assim? Não sou eu quem decide no que usar meu dinheiro? Aparentemente, não!
Nos últimos meses os (quase sempre) anônimos e batalhadores artistas de rua estão proibidos de exercerem suas atividades caso aceitem receber doações em troca. Se eles quiserem continuar lá, sem aceitar doações, eles estão completamente livres para ir e vir, ficar e encantar, mas, não podem nem deixar algo no chão que dê ao público a ideia de “aceito doações”. A arte pela arte terá que bastar. Agora, alguém me responda: você já viu algum governador abrir mão de seu salário?
Na tentativa de justificarem o ato, explicaram que assaltantes estão usando essa arte como forma de distração. Seria, portanto, questão de segurança pública. Mega importante, concordo! Mas, se decidirmos proibir todas as expressões passíveis do roubo ou perigo, melhor terminar de vez com nosso direito de ir e vir. Sair na rua pode ser perigoso. Fechar parques seria outra opção, afinal, são locais perigosos, com árvores e becos. Podemos também impedir o comércio de carros: Quantos acidentes não ocorrem num dia? Impedir todo um grupo de profissionais por que alguns não são honestos não me parece a melhor solução. Tiremos todos os políticos do plenário, policiais das ruas, advogados, médicos, padres... ou seria errado afirmar que já tivemos problemas com todos esses profissionais também?
Outra questão levantada foi a necessidade de interromper tais atividades já que o comércio ambulante é atualmente proibido. Que comparação é essa? A rua é pública, o corpo é deles, não atrapalham a passagem, não pedem nada, só estão ali ofertando arte e esperando que alguém olhe e ache que valem uma moeda. O engraçado é que garotas de programa continuam nas ruas, cinemas pornôs até foram feitos para que não ficassem expostas, mas todas podem receber pelo uso de sua "arte". O que me parece é que os safados da noite têm direito de comprar prazer, enquanto que os passantes do dia não podem se encartar com a arte de rua.
A verdade é que as autoridades tentam de várias formas conter a crescente violência e criminalidade das ruas. Outras vezes só buscam novas formas de conseguir dinheiro. E no meio disso tudo, acabam resolvendo problemas que eles consideram grandes, ao invés de resolverem aqueles que sempre voltamos a pedir. Não vêem a violência também vivida por esses artistas. Artistas que precisam enfrentar um público por vezes hostil, no meio do frio e da chuva, ou embaixo do sol do meio-dia. E o pior é que, no final, a violência continuará a subir, os hospitais não vão melhorar, as escolas continuarão como estão, e a única mudança será uma cidade CADA VEZ MAIS CINZA pois esses artistas que dão um colorido especial sairão das ruas provando sendo, dessa vez, o novo exemplo de como o artista é menosprezado no Brasil.
