quarta-feira, 31 de outubro de 2012

No dia das bruxas, que todo esqueleto dance junto.


Alguns anos atrás, foi criado no Brasil o dia do Saci-pererê. Esse dia foi propositalmente colocado para o dia 31 de outubro como uma forma de “resistência pacífica” em contraposição ao dia das bruxas (celebrado fortemente em países norte-americanos e com origem Celta). Isso, para que reduzíssemos a influência cultural estrangeira e valorizássemos o nosso folclore (palavra de origem inglesa, inclusive). Por esse motivo, de 2005 para cá, brasileiros mandam em outubro correntes que dizem para ignorarmos o dia das bruxas e celebrarmos o dia do saci.

Primeiramente, gostaria de esclarecer que eu sou super a favor da ideia de incentivar nossa cultura popular. Acredito que ela merece ser valorizada. Entretanto, discordo dessa alteração de propósito da data. Que tal simplesmente criarmos o dia do saci num dia que represente algo para a cultura popular? Sou contra uma alteração que de certo modo gera uma “resistência pacífica” (se é que isso é possível?) e atritos de culturas que não precisam ser excludentes. Afinal, sabemos que grande parte dos maiores conflitos mundiais iniciou-se a partir de guerras entre crenças, culturas ou concepções político-religiosas. Isso, pois temos a constante mania de não compreendermos a cultura alheia e impiedosa vontade de sobrepor a nossa realidade à do outro.

Ninguém nunca pediu para que nossas lendas fossem esquecidas e o dia das bruxas celebrado. Se algo da cultura estrangeira chama a atenção do povo, acredito que podemos entender a importância dessa e ver que o cultural externo é tão rico quanto o nosso, com seus folclores e contos. Reforçar a importância do saci através da oposição ao “dia das bruxas” pode, inclusive, criar uma falsa idéia de que nossa cultura é mais importante que a do outro. Causar um sentimento de intolerância. Uma desvalorização do que é de fora e supervalorização do que é interno (justo no Brasil, país formado da miscigenação de culturas estrangeiras).

Pelos motivos acima citados, creio que não devemos celebrar ao nosso, excluindo o do outro. Que tenhamos o dia do saci e que possamos também celebrar o dia das bruxas. Ou então, que celebremos todos juntos... que dance a caipora com o vampiro, a bruxa com o saci, o lobisomem e o curupira. Que a mãe-d’água e as sereias possam nadar juntas. Que o Jack O’Lantern possa andar numa mula-sem-cabeça...

Como colocado no livro Dragões de Éter (amo e cito sempre)... “Culturas não se medem com sinais de mais ou de menos”. Mais uma vez, não devemos super, nem sub, valorizar culturas. Cada qual tem seu sentido, importância e valor por trás dela. Entender, celebrar, curtir uma não impede o cidadão de fazer o mesmo por outras. Que botemos hoje a música pra rodar... que tenha saxofone e viola junto... e que todos os esqueletos possam balançar... sejam de bruxa ou de saci!

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Que Seja Vista Além da Dor... a Rosa que Carrega o Amor.

Algum tempo atras, talvez alguns dissessem muito, outros pouco... Eu escrevi um texto que perguntava: Por um acaso a rosa tem medo dos seus espinhos? Nesse texto, eu falava sobre a importância de se aceitar e de ser quem é. Não somente no belo das pétalas, mas também nos espinhos que protegem e ferem ao mesmo tempo.

Hoje trago de certa forma o mesmo assunto, porém, de forma nova. A pergunta que faria na mesma metáfora, agora talvez seria: A rosa te é menos bela pelos espinhos que tem? 

Aparentemente, no meio de certa bagunça, me vem lágrima aos olhos ao pensar que a resposta seria sim. A rosa é bela flor até que o espinho lhe cause dor. É como se na hora que a picada acontece, toda a cor da pétala sumisse e toda rosa fosse espinho. Todo ser fosse frágil. Todo corpo fosse falho. Toda vida fosse errada.

Será realmente que a falha do outro tem esse poder? Será que uma gota de limão transforma açúcar em sal? Será que o Yin faz do Yang negro de forma total? É como se perdêssemos a capacidade de enxergar que o outro ainda é quem um dia foi... Ao invés de reconhecermos que o ser ideal é na verdade um ser real, passamos a considerar como se o ser que é humano na verdade não o fosse... Pobre ser desumano, mundano, pecador... Por qual motivo não percebe que causa dor?

Mas eu creio que não. Ele percebe... Pois ele é o que sempre foi. É como no trecho de um dos meus livros favoritos que diz algo como: mesmo que chame a rosa de formiga, ela ainda ser flor e ainda ser bela. Limão no açúcar pode virar limonada ou pode mudar a matéria em nada. O Yin é parte do Yang, como a sombra é parte da luz, o pecado parte do fiel, os defeitos parte dos humanos... E eles não cancelam qualidades. O erro é parte do acerto assim como o correto só existe ao ponto que o errado é conhecido. Tudo que precisamos fazer é ENTENDER.

Não escrevo esse texto para dizer que devemos ignorar os erros, ou que a falha é algo que deve ser aceitado. Eu sei como machucam os espinhos. Mas também creio, e vejo, que a rosa continua rosa mesmo que me tire sangue de um dedo. Eu posso gritar. Devo chorar. Talvez até fazer um curativo, lavar, ganhar um beijinho cheio de carinho... Mas ainda assim, preciso reconhecer que a rosa é flor, e a flor é bela... Bela como antes foi. Bela como o ser humano é... Com todas suas pétalas, com todas as suas folhas... Com suas ramificações, com todos seus espinhos.

Não se esqueça da cor, da beleza, da textura, do aroma... pode ser difícil no primeiro momento, mas veja além da dor... veja aonde ainda existe o amor.