Alguns anos atrás, foi criado no Brasil o dia do
Saci-pererê. Esse dia foi propositalmente colocado para o dia 31 de outubro
como uma forma de “resistência pacífica” em contraposição ao dia das bruxas (celebrado
fortemente em países norte-americanos e com origem Celta). Isso, para que
reduzíssemos a influência cultural estrangeira e valorizássemos o nosso
folclore (palavra de origem inglesa, inclusive). Por esse motivo, de 2005 para
cá, brasileiros mandam em outubro correntes que dizem para ignorarmos o dia das
bruxas e celebrarmos o dia do saci.
Primeiramente, gostaria de esclarecer que eu sou super a
favor da ideia de incentivar nossa cultura popular. Acredito que ela merece ser
valorizada. Entretanto, discordo dessa alteração de propósito da data. Que tal
simplesmente criarmos o dia do saci num dia que represente algo para a cultura
popular? Sou contra uma alteração que de certo modo gera uma “resistência
pacífica” (se é que isso é possível?) e atritos de culturas que não precisam
ser excludentes. Afinal, sabemos que grande parte dos maiores conflitos
mundiais iniciou-se a partir de guerras entre crenças, culturas ou concepções
político-religiosas. Isso, pois temos a constante mania de não compreendermos a
cultura alheia e impiedosa vontade de sobrepor a nossa realidade à do outro.
Ninguém nunca pediu para que nossas lendas fossem esquecidas
e o dia das bruxas celebrado. Se algo da cultura estrangeira chama a atenção do
povo, acredito que podemos entender a importância dessa e ver que o cultural
externo é tão rico quanto o nosso, com seus folclores e contos. Reforçar a
importância do saci através da oposição ao “dia das bruxas” pode, inclusive,
criar uma falsa idéia de que nossa cultura é mais importante que a do outro.
Causar um sentimento de intolerância. Uma desvalorização do que é de fora e
supervalorização do que é interno (justo no Brasil, país formado da
miscigenação de culturas estrangeiras).
Pelos motivos acima citados, creio que não devemos celebrar
ao nosso, excluindo o do outro. Que tenhamos o dia do saci e que possamos
também celebrar o dia das bruxas. Ou então, que celebremos todos juntos... que
dance a caipora com o vampiro, a bruxa com o saci, o lobisomem e o curupira.
Que a mãe-d’água e as sereias possam nadar juntas. Que o Jack O’Lantern possa
andar numa mula-sem-cabeça...
Como colocado no livro Dragões de Éter (amo e cito
sempre)... “Culturas não se medem com sinais de mais ou de menos”. Mais uma
vez, não devemos super, nem sub, valorizar culturas. Cada qual tem seu sentido,
importância e valor por trás dela. Entender, celebrar, curtir uma não impede o
cidadão de fazer o mesmo por outras. Que botemos hoje a música pra rodar... que
tenha saxofone e viola junto... e que todos os esqueletos possam balançar...
sejam de bruxa ou de saci!